Muitos leitores em português conhecem Homero, Goethe, Tolstói e Victor Hugo através de um tradutor. A história é deles. As frases em português não.

Vale a pena lembrar isso antes de chamar um clássico traduzido de difícil, engraçado, rígido ou belo. Está a ler um livro feito por um autor e transportado para o português por outra pessoa.

O Dia Internacional da Tradução celebra-se a 30 de setembro. As Nações Unidas criaram-no em 2017 para reconhecer os profissionais da língua e o seu trabalho entre línguas e culturas. A sua página sobre a data é um lembrete útil de que a tradução é trabalho, não canalização invisível.

Não precisa de saber grego, russo, inglês ou francês para ler bem um clássico traduzido. Comece por prestar atenção à edição que tem.

Encontre o nome do tradutor

Olhe para a capa, a página de rosto ou a página de direitos. Encontre o nome do tradutor antes de começar.

Isso muda a forma como lê. Um tradutor decide quão formal deve soar uma frase, até que ponto uma piada sobrevive e se uma expressão pouco familiar continua pouco familiar. Essas escolhas não substituem o autor. Moldam o livro que tem nas mãos.

Se pedir um exemplar emprestado numa biblioteca ou comprar uma edição em segunda mão, anote também a sua data de publicação. Uma tradução de 1910 pode usar uma linguagem que lhe pareça distante. Isso não a torna má. Diz-lhe que tipo de português essa edição lhe oferece.

Leia o primeiro capítulo antes da introdução

Uma introdução do tradutor pode ajudar. Também pode impor-lhe uma interpretação antes de o romance ter tido a oportunidade de agir sobre si.

Leia primeiro um capítulo. Depois vá à nota quando encontrar um problema que valha a pena resolver. Talvez um nome esteja sempre a mudar. Talvez uma piada pareça sem graça. Talvez uma frase soe estranhamente formal.

A nota pode explicar o que o tradutor escolheu fazer. Volte depois ao capítulo. O objetivo é passar mais tempo com o livro, não mais tempo a ler sobre ele.

Compare uma passagem importante

Se houver duas traduções disponíveis, não compare a primeira página durante uma hora. Escolha uma cena que importe: uma discussão, um primeiro encontro, um discurso ou uma descrição que não lhe sai da cabeça.

Leia ambas as versões em voz alta. Repare no que muda.

Uma pode avançar rapidamente. Outra pode demorar-se num pormenor. Uma pode soar próxima da fala moderna. Outra pode deixar a frase mais áspera e estranha.

Não está a tentar provar que uma tradução vence. Está a reparar que o mesmo livro pode chegar ao português com texturas diferentes.

Faça perguntas que se mantenham próximas da página

A IA pode ajudar na leitura atenta se lhe der uma tarefa limitada. Não lhe peça para classificar traduções que não leu realmente. Não lhe peça para inventar a formulação na língua original.

Dê-lhe uma passagem da sua edição e experimente isto:

O que é que esta passagem em português enfatiza através da escolha de palavras e da estrutura das frases? Dá-me duas observações que eu possa verificar no texto. Não afirmes conhecer a formulação na língua original, a menos que eu a forneça.

Essa é uma conversa melhor. Continua a ter a página à sua frente. Pode discordar. Pode apontar para uma linha e dizer: "Não, não é isso que eu ouço."

Texto com Autores pode enquadrar-se nesse tipo de leitura. Leve uma cena, imagem ou pergunta específica do livro. Trate a resposta como uma interpretação que pode pôr à prova, não como uma afirmação histórica do autor nem como substituto do trabalho do tradutor.

Mantenha uma pergunta ao lado do livro

Depois de cada sessão, escreva uma coisa:

  • O que é que esta versão torna fácil de ouvir?
  • O que é que ainda parece estranho?
  • Que frase compararia noutra edição?

Isso basta. Não precisa de se tornar um especialista em tradução antes de abrir um clássico. Só precisa de reparar que o tradutor faz parte da experiência de leitura.

O livro continua lá. Agora consegue ver um pouco melhor como chegou até si.